
Uma investigação da Polícia Federal (PF) revelou um suposto esquema de desvio de recursos públicos destinados à merenda escolar no Ceará, envolvendo uma empresa e pessoas apontadas como intermediárias para movimentar grandes quantias em espécie. Os indícios resultaram na prisão em flagrante de dois homens que sacaram R$ 400 mil em dinheiro vivo a pedido de um empresário investigado pelo caso.
Ação policial e prisões em Iguatu
No final de dezembro do ano passado, agentes federais flagraram Antônio Oliveira Filho e Wallis Bernardo do Carmo com R$ 400 mil em espécie em uma agência bancária na cidade de Iguatu (CE). De acordo com documentos da PF, os dois homens teriam sacado esse montante por ordem de Diego Marcondes Cartaxo Tavares, empresário e proprietário da DLA Comercial de Alimentos EIRELI, empresa sob investigação por suposto desvio de verba pública.
Os suspeitos foram detidos e enquadrados por lavagem de dinheiro, mas foram libertados após audiência de custódia mediante pagamento de fiança de R$ 60 mil — R$ 50 mil por Wallis e R$ 10 mil por Antônio. Ambos agora respondem em liberdade às acusações.
Indícios do esquema criminoso
Segundo a PF, há fortes indícios de que Diego teria usado uma rede de “laranjas” — pessoas físicas ou jurídicas interpostas — para movimentar valores em espécie e ocultar a real origem dos recursos. A investigação aponta que cerca de R$ 19,1 milhões foram sacados por meio dessas operações, algumas realizadas por Wallis e Antônio ao longo de vários anos.
Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) encaminhados à PF identificaram 951 comunicações de operações financeiras suspeitas ligadas à DLA Comercial de Alimentos entre novembro de 2018 e janeiro de 2025 — muitas delas saques de cifras entre R$ 99 mil e R$ 199 mil.
Análises da PF demonstraram que o volume de dinheiro retirado em espécie era desproporcional ao faturamento esperado para uma empresa no ramo de comercialização de alimentos, sugerindo que a DLA Comercial teria servido como instrumento para lavagem de dinheiro e possível ocultação de verbas públicas desviadas do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), financiado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE).
Defesas negam irregularidades
A reportagem procurou a DLA Comercial de Alimentos, mas a empresa não atendeu às ligações. As defesas de Diego e dos dois homens presos também não foram localizadas para comentar as acusações.
Em depoimento à PF, Antônio afirmou que realizava saques e pagamentos para Diego há cerca de três anos sem vínculo formal de emprego, enquanto Wallis alegou que os valores sacados eram provenientes de sua própria empresa para cobrir despesas operacionais, como pagamento de fornecedores.
Os advogados envolvidos argumentaram que o relatório do Coaf não tem, por si só, valor probatório suficiente para fundamentar uma prisão cautelar, destacando que a inteligência financeira trabalha com indícios estatísticos, enquanto o direito penal exige provas concretas de prática criminosa.