
Piloto que morreu na queda de girocóptero no litoral potiguar transmitia seus voos nas redes sociais horas antes do acidente
Um girocóptero caiu por volta das 16h30 de segunda‑feira, 21 de abril, na faixa de areia entre as praias de Areias Alvas (Grossos) e Tibau, na Costa Branca do Rio Grande do Norte. O acidente vitimou o piloto e empresário Flavius Neves, 66 anos, e o passageiro Geraldo Francisco da Silva, 42. Ambos ficaram presos às ferragens e morreram ainda no local, segundo o Corpo de Bombeiros.
Na manhã do mesmo dia, Flavius publicou em suas redes sociais um vídeo em que aparecia a bordo, no banco de passageiro, de outro girocóptero semelhante ao que caiu à tarde. Nos últimos meses, ele havia transformado o perfil no TikTok em uma vitrine do turismo aéreo na região, realizando lives quase diárias para exibir a vista panorâmica das falésias e dunas de Tibau.
De acordo com o registro do aplicativo, a última transmissão começou às 16h01 e terminou às 16h34 — janela que coincide com o horário estimado do acidente. O vídeo da live, contudo, não está mais disponível no perfil.
Uma banhista que caminhava pela praia filmou o instante em que a aeronave perde sustentação, inclina o nariz e despenca rumo à areia (veja o vídeo abaixo). Segundos depois do impacto, curiosos se aproximam, enquanto pedaços do girocóptero ‑ incluindo parte das hélices e da cauda ‑ ficam espalhados num raio de aproximadamente 30 metros. As imagens circularam rapidamente em grupos de mensagens e perfis locais no Instagram.
Equipes do Corpo de Bombeiros Militar do RN — sediadas em Mossoró — chegaram cerca de 20 minutos após o chamado. Por causa da estrutura metálica retorcida, foi necessário usar ferramentas de corte para retirar as vítimas. A Polícia Militar isolou a área até a chegada do Instituto Técnico‑Científico de Perícia (Itep‑RN), responsável pelos exames necroscópicos e pela remoção dos corpos.
A Força Aérea Brasileira (FAB), por meio do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), enviará técnicos para levantar dados sobre manutenção, condições meteorológicas, plano de voo e eventual falha mecânica do girocóptero, que era empregado em passeios turísticos ao longo do litoral potiguar.
Diferente de um helicóptero, o girocóptero (ou autogiro) não utiliza o motor para girar o rotor principal. As hélices montadas sobre a cabine entram em rotação livre com o fluxo de ar gerado pelo avanço da aeronave, proporcionando sustentação. Um pequeno motor aciona apenas a hélice traseira, que impulsiona o aparelho para frente. Em geral, esse tipo de aeronave opera a 200–500 m de altitude e a velocidades entre 70 e 160 km/h.
Pela legislação brasileira, girocópteros destinados a voos panorâmicos devem seguir regras específicas de manutenção e inspeção periódica da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC). Eventuais falhas em componentes do rotor ou perda repentina de potência podem comprometer a autorrotação e resultar em perda de controle.
Coleta de destroços
Rotor, motor, comandos de voo e painéis serão levados ao pátio do Cenipa.
Análise de registros
Diários de manutenção, habilitação do piloto e logs de GPS ou celular.
Entrevistas com testemunhas
Banhistas, operadores turísticos e outros pilotos que voaram no dia.
Laudo preliminar
Deve sair em até 30 dias; o relatório final costuma levar até 1 ano.
Até a conclusão do inquérito, a recomendação é suspender passeios comerciais com girocópteros na região, medida já apoiada por associações locais de pilotos.
Impacto local
A queda chocou a comunidade de Tibau, que vinha impulsionando o turismo de aventura. Restaurantes e pousadas manifestaram luto nas redes sociais, e a prefeitura decretou ponto facultativo na terça (22) para homenagear as vítimas.
A família de Flavius informou, em nota, que o velório será realizado nesta terça‑feira (22) em Mossoró, onde ele residia. Já a família de Geraldo, que era natural de Grossos, optou por cerimônia restrita.