
O esgotamento físico e emocional relacionado ao trabalho tem se tornado uma realidade cada vez mais frequente entre os trabalhadores. Conhecida comosíndrome deburnout, a condição é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um fenômeno associado ao contexto ocupacional e pode provocar importantes prejuízos à saúde mental, física e à qualidade de vida.
Caracterizada por exaustão intensa, sentimento de distanciamento em relação ao trabalho e redução da eficácia profissional, a síndrome exige atenção aos sinais iniciais e acompanhamento adequado para evitar o agravamento do quadro.
Segundo o psiquiatra do Hospital de Saúde Mental Professor Frota Pinto (HSM),Helder Gomes, oburnoutnão surge de forma repentina, mas costuma se desenvolver gradualmente a partir da exposição prolongada a situações de estresse e sobrecarga.
“Oburnoutestá diretamente relacionado ao desgaste emocional provocado pelas exigências do trabalho. Muitas vezes, a pessoa começa a apresentar sintomas que são interpretados apenas como cansaço, mas que podem evoluir para um quadro mais grave se não forem identificados e tratados adequadamente”, explica.
Entre os principais sinais de alerta estão o cansaço persistente, dificuldade de concentração, alterações do sono, irritabilidade, ansiedade, desmotivação, sensação de incapacidade para lidar com as demandas diárias e sintomas físicos, como dores de cabeça, tensão muscular e fadiga constante.
De acordo com o especialista, o impacto da síndrome ultrapassa o ambiente profissional e pode comprometer diversas áreas da vida. “O sofrimento emocional acaba refletindo nos relacionamentos, na produtividade e no bem-estar geral. Por isso, é fundamental procurar ajuda quando os sintomas passam a interferir na rotina e na qualidade de vida”, ressalta.
O diagnóstico precoce e o acompanhamento especializado são fundamentais para a recuperação. O tratamento pode incluir atendimento psicológico, acompanhamento psiquiátrico, mudanças nos hábitos de vida e estratégias para o manejo do estresse, sempre respeitando as necessidades individuais de cada paciente.
Como porta de entrada para o acolhimento em saúde mental, o HSM disponibiliza o serviço de Plantão Psicológico, que funciona de segunda a sexta-feira, das 7h às 19h. O atendimento oferece escuta qualificada para pessoas que estejam enfrentando sofrimento emocional, crises psicológicas ou que necessitem de orientação especializada.
Foi o que aconteceu com a auxiliar administrativa Ana Júlia Brito, de 36 anos. Após meses lidando com uma rotina intensa de trabalho, ela começou a perceber alterações no sono, irritabilidade constante e uma sensação de cansaço que não melhorava mesmo após períodos de descanso. Ao buscar ajuda noPlantão Psicológico do HSM, encontrou acolhimento e orientação para compreender o que estava acontecendo.
“Eu achava que era apenas uma fase de muito trabalho, mas comecei a sentir que não conseguia mais dar conta das atividades do dia a dia. No atendimento, entendi a importância de cuidar da minha saúde mental e procurar acompanhamento”, relata.
Para o médico do trabalho do HSM, Ricardo Leite, a prevenção doburnoutdepende não apenas do cuidado individual, mas também da construção de ambientes organizacionais mais saudáveis.

Médico do trabalho, Ricardo Leite, destaca a importância de reconhecer os limites físicos e emocionais diante das demandas profissionais
“A saúde mental passou a ocupar um espaço cada vez mais importante nas discussões sobre Saúde e Segurança do Trabalho. Hoje, existe uma compreensão maior de que os fatores psicossociais presentes no ambiente laboral também podem causar adoecimento e precisam ser identificados e gerenciados pelas organizações”, afirma.
Entre os avanços observados nos últimos anos, o especialista destaca o fortalecimento das políticas voltadas à saúde mental no trabalho, o incentivo à identificação dos riscos psicossociais e a preparação das lideranças para desenvolver habilidades de escuta, empatia e acolhimento.
“Gestores mais preparados conseguem reconhecer sinais de sofrimento emocional em suas equipes e contribuir para a construção de ambientes mais saudáveis, favorecendo tanto o bem-estar dos trabalhadores quanto os resultados institucionais”, explica.
Outro movimento importante apontado pelo médico é a flexibilização das formas de trabalho. “Modelos híbridos e remotos, quando implementados de maneira adequada, podem favorecer o equilíbrio entre vida pessoal e profissional, reduzindo fatores relacionados ao estresse ocupacional”, reforça.
Apesar dos avanços, o médico destaca que ainda existem desafios importantes. “Muitas organizações já reconhecem a importância da saúde mental, mas ainda enfrentam dificuldades para transformar essa preocupação em ações concretas. Sobrecarga de trabalho, metas excessivas, assédio e falta de apoio institucional continuam sendo fatores relevantes de adoecimento”, observa.
Segundo ele, investir na promoção da saúde mental é uma estratégia que beneficia trabalhadores e instituições. Ambientes saudáveis contribuem para a redução do absenteísmo – padrão de ausências, atrasos ou saídas antecipadas não programadas no ambiente de trabalho -, dos afastamentos por adoecimento e do presenteísmo — situação em que o profissional permanece no trabalho mesmo sem condições adequadas de saúde – e favorecem a uma maior satisfação e produtividade das equipes.
Os especialistas orientam que a busca por apoio profissional deve ocorrer sempre que os sintomas começarem a comprometer a rotina e o bem-estar.

Os especialistas do Hospital de Saúde Mental Professor Frota Pinto reforçam que buscar ajuda especializada não é sinal de fraqueza, mas uma atitude de cuidado e responsabilidade consigo mesmo. Reconhecer os sinais precocemente e procurar orientação adequada pode fazer toda a diferença no processo de recuperação e na preservação da qualidade de vida.
Plantão Psicológico do Hospital de Saúde Mental Professor Frota Pinto
Rua Vicente Nobre de Macedo, s/n – Messejana
Dias e horários: segunda a sexta-feira, das 7h às 19h.